terça-feira, 3 de fevereiro de 2009




" Há metafísica bastante não pensar em nada

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e efeitos?
Que tenho eu pensado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos
Começa a não saber o que é o sol
e a pensar em muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
e já não pode pensar em nada,
porque a luz do sol vale mais do que todos os pensamentos
de todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz,
por isso não erra, é comum e boa.

" constituição intima das coisas"...
" sentido íntimo do universo"...
Tudo isso é falso, tudo isso não quer dizer nada.
E é incrível que se possa pensar numa coisa dessas.
É como pensar em razões e afins
quando o começo da manhã está raiando, e pelo lado das árvores
um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
é acrescentado, como pensar na saúde
ou levar um copo de água as fontes.

O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido nenhum.

Se Deus criou as flores e as árvores
e os montes, o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
e a minha vida é toda uma oração e um culto,
e uma comunhão com Ele pelos olhos e pelos ouvidos.

Sejamos então, simples e calmos,
como os regatos e as árvores,
e Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
e dar-nos-á o verdor da sua primavera,
e um rio onde ir ter quando acabemos!..."


Fernando Pessoa

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